meu primeiro 'feliz dia das mulheres' foi hoje às seis da manhã em uma situação inóspita. comentei com uma amiga que esse certamente seria o primeiro e o último, porque provavelmente não encontraria meu pai hoje. e como não moro mais com os meus pais, talvez minha florzinha esteja esperando no balcão da cozinha.
todo dia nove de março era de lei. eu sempre acordava com uma flor a minha espera. uma pra mim e outra pra minha mãe. mas não era típico somente do dia das mulheres. todo final de semana meu pai volta carregado de lírios colhidos por ele pra perfumar a casa. se não são lírios, são margaridinhas. uma das coisas que ele melhor me ensinou foi como enxergar flores do campo, colher, e presentear com elas.
ele sempre nos deu flores e nós sempre colhemos sementes pelas praças e ruas pra ele admirar e plantar, uma a uma. em troca eu recebo mini-abóboras, mini-melancias, goiabinhas vermelhas com bicho. flores e frutinhas pequenas para a filha solteira.
*
já dei flores e frutas pra várias amigas. flores e frutas de pegar pelo mundo, não de comprar. já dei flores a homens que amei muito. mulheres são treinadas pra receber flores, homens não. e parecem ainda mais felizes quando as recebem. porém, se for dada uma fruta a um homem dificilmente ele vai comer. esse é um grande mistério para mim.
mas o melhor presente que meu pai já me deu - e talvez ele nem saiba - não foi flor nem fruta. foi uma forminha antiga de metal para fazer chocolates que ele achou no ferro-velho. e pagou uns 20 centavos nela.
*
só consigo pensar na minha experiência de gênero na minha relação com os homens. e como eu só quero pensar nos aspectos positivos da minha trajetória neste meu dia, quero agradecer até aos calhordas, canalhas e insensíveis que passaram por mim. é por meio deles que eu posso entender a dimensão do mundo feminino, a importância das mulheres para as mulheres e a profundidade possível da solidariedade feminina.
e se for pra agradecer especialmente a alguém pela mulher que eu sou hoje, eu evidentemente agradeceria ao meu pai. por me ensinar a ser sensível ao valor real dos gestos, das intenções e da generosidade.
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segunda-feira, 8 de março de 2010
sexta-feira, 5 de março de 2010
le plus beau du quartier
Descobri uma série da Warner, The Mentalist.
E descobri no mesmo dia que uma outra série, Lie to Me.
O que as duas têm de comum, além de poderosos homens incapazes de serem presenteados com a mentira? Resolução de crimes baseados em um psicologismo barato, daqueles que irritam qualquer um que é minimamente averso a manuais de auto-ajuda.
Enquanto Lie to Me apresenta um protagonista irritante cuja arrogância jamais será carismática como a do House, lá pelo episódio 5 da primeira temporada The Mentalist dá um salto qualitativo impressionante. A direção se acerta, os personagens começam a fazer sentido e se tornar interessantes. O estilo auto-ajuda é substituído por uma aposta muito bem sucedida em uma releitura do Sherlock Holmes. E é aí que a coisa começa a ficar boa.
Patrick Jane é um viúvo ex-charlatão vidente, que passa a trabalhar como consultor da do Centro de Investigação Criminal da Califórnia. Exatamente, Califórnia, e no verão que não impede que ele se mantenha impecavelmente trajado com suas calças e camisas em tonalidades de azul e... colete.
Sim. Camisa, calça, colete e paletó. Terno! Importante: sem gravata. Caimento e cores impecáveis e neutras. Eu queria beijar @ figurinist@. Há muito tempo eu não via algo tão masculino e viril usado com tanta propriedade no personagem certo. É claro que temos umas influências vitorianas aí.
Só que esse novo Holmes, embora semelhantemente instrospectivo, é o maior sedutor que eu já vi. Charlatão, vidente, introspectivo, sedutor, excelente jogador de pôker e exímio trapaceiro. Mas nele não existe um traço sequer de egoísmo. Ganha fortunas e compra presentes caríssimos e distribui malas de dinheiro. Não compra nada para si mesmo. E sempre com com o segundo sorriso mais lindo do mundo. Não, terceiro (Um dia faço esse ranking). Eu percebi que até o sorriso dele é generoso. E até os inimigos gostam dele. Ele provoca quem julga culpado com um atrevimento típico de quem nunca tem nada a perder. E apanha por merecer, sempre. Fisicamente ou não.
Não pra menos, é o homem que melhor se encaixa em ser o plus beau du quartier - categoria em que os ingênuos enxergam Sarkozy: Je suis le roi du désirable... Et je suis l'indéshabillable! Hmmm hmm hmmm
E descobri no mesmo dia que uma outra série, Lie to Me.
O que as duas têm de comum, além de poderosos homens incapazes de serem presenteados com a mentira? Resolução de crimes baseados em um psicologismo barato, daqueles que irritam qualquer um que é minimamente averso a manuais de auto-ajuda.
Enquanto Lie to Me apresenta um protagonista irritante cuja arrogância jamais será carismática como a do House, lá pelo episódio 5 da primeira temporada The Mentalist dá um salto qualitativo impressionante. A direção se acerta, os personagens começam a fazer sentido e se tornar interessantes. O estilo auto-ajuda é substituído por uma aposta muito bem sucedida em uma releitura do Sherlock Holmes. E é aí que a coisa começa a ficar boa.
Patrick Jane é um viúvo ex-charlatão vidente, que passa a trabalhar como consultor da do Centro de Investigação Criminal da Califórnia. Exatamente, Califórnia, e no verão que não impede que ele se mantenha impecavelmente trajado com suas calças e camisas em tonalidades de azul e... colete.
Sim. Camisa, calça, colete e paletó. Terno! Importante: sem gravata. Caimento e cores impecáveis e neutras. Eu queria beijar @ figurinist@. Há muito tempo eu não via algo tão masculino e viril usado com tanta propriedade no personagem certo. É claro que temos umas influências vitorianas aí.
Só que esse novo Holmes, embora semelhantemente instrospectivo, é o maior sedutor que eu já vi. Charlatão, vidente, introspectivo, sedutor, excelente jogador de pôker e exímio trapaceiro. Mas nele não existe um traço sequer de egoísmo. Ganha fortunas e compra presentes caríssimos e distribui malas de dinheiro. Não compra nada para si mesmo. E sempre com com o segundo sorriso mais lindo do mundo. Não, terceiro (Um dia faço esse ranking). Eu percebi que até o sorriso dele é generoso. E até os inimigos gostam dele. Ele provoca quem julga culpado com um atrevimento típico de quem nunca tem nada a perder. E apanha por merecer, sempre. Fisicamente ou não.
Não pra menos, é o homem que melhor se encaixa em ser o plus beau du quartier - categoria em que os ingênuos enxergam Sarkozy: Je suis le roi du désirable... Et je suis l'indéshabillable! Hmmm hmm hmmm
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